top of page

Pintura em verso
 

Pintura com poesia, para mim, é música. Irene Gomes faz dançar imagens muito íntimas à superfície da tela e expõe-se por palavras paralelas às suas próprias cores.
Gosto desta ousadia, literalmente tão simples como a arte de pintar desta senhora cuja luz queima sem arder. Explode e fica como um clarão silencioso ao roçar do movimento. As palavras dizem que tudo é tão claro, mas há muito musgo para descobrir neste texto de sombras várias. Porque há penumbras poéticas nesta mistura de palavras com personagens que Irene criou em passos anteriores do seu percurso. E toda a gente se junta nesta festa dos sentidos que a autora criou com cheiros e chuva, pedras e pedaços de um corpo em delírio. Da cadência o riso guia teus passos labirínticos diz Irene, lá onde aves e anjos perdem o esvoaçar no desvelo do linho.
É nestes espaços imaginários que escreve e pinta perdidamente tudo o que a noite lhe traz no regresso da madrugada. Porque, no fundo, ela própria desagua toda inteira neste verso que fala de uma flauta mágica ao som da qual, confessa, sai do quadro para se cristalizar no côncavo das mãos. Um gesto simples, afinal, onde Irene se resume: Pedra piramidal no verbo de ser céu. 


Carlos Magno

bottom of page