Cada obra de arte é uma narrativa. A que Irene Gomes empreendeu há 20 anos, retoma uma história que remonta à noite dos tempos. Para ela, a pintura apareceu muito cedo como o único modo de expressão capaz de ser mostrado por imagens. A sua terra natal, lá está, fecunda, no coração da sua obra. Inculcou-lhe visceralmente, antes de todo o conhecimento e toda a aprendizagem, apenas a sua herança, ou seja, as suas paisagens, os seus habitantes, as suas tradições, a sua terra que o fermento do qual pôde colher os elementos de uma narração impregnada de sentidos. Eis a génese de uma vocação fundeada nos flancos da bacia mediterrânica.
Mais tarde, com a reflexão e o «saber de experiências feito», Irene Gomes enceta a progressão plástica pelos terrenos da figuração. Não aquela banal e rapidamente captada pelo olhar. Mas antes, uma realidade transposta. Uma apresentação codificada, porque se concretiza através de um estilo, uma escrita por ela mesma elaborada. Irene Gomes faz sua a realidade. Ela intervém e instala, por isso, um distanciamento com as aparências. Melhor, toma de assalto o real, submetendo-o à sua própria expressão. As suas personagens são as transcrições gráficas e coloridas das suas sensações. Ao serem encenadas tornam-se visões oníricas dos seres que a rodeiam. A sua imaginação vagabunda encontra uma equivalência narrativa nesta reinvenção a partir de uma combinatória formal.