top of page

LIVRE DE CABELOS VERDES


Um álbum que retrospetiva os círculos de um artista é como que um chaveiro de símbolos que nos permite aceder ao interior das fortalezas, redescobrindo labirintos da criação, portas entreabertas das oficinas do tempo. Na sua breve cronologia a artista Irene Gomes, já aceitou subdividir a sua unidade, pois a vida tem diversas e complexas idades, e estados de obsessões, jogos de coração e de decoração. E os jogos desta artista vão da próxima rua à mais distante lua. Vão dos animais mais domésticos às feras mais pavorosas. Vão da terra com os seus linhos e mulheres de papel, aos mares, com seus peixes e adoradores de Sol. Vão, entre o corpo e a sombra, do Minho a Timor. Vão à procura de cura para a melancolia, por leiras e areias, cata-ventos e conventos, abraços e embaraços.

A arte de Irene é de encontro e de envolvimento: É uma pintura de cores populares e tropicais, simultaneamente uma narrativa que recupera a infância e acalma as tentações. É prudente que uma autora abra capítulos do fazer e do afazer pois assim se obriga a repensar o poder da memória e o silêncio do perdido e do porvir. Está em fase de legítimo balancete de terras percorridas e de povos contactados, de releitura dos mapas de viagem e vagabundagem, enfrentando a rota da sua luz. É, sem dúvida, uma pintura da luz (multicolor e multilingue). No trajecto aprendeu a pintar e a pintar-se, interligando sociedade e insaciedade, trabalhos e deleites, mediando diálogos de bichos e frutos, utensílios da sorte e da morte. 

Irene Gomes canta através das tintas, compõe estórias de pasmar os dias, deliciando-se com as dores da inspiração.  Tocada pelo mundo lusitano, africano e asiático, aqui se folheiam os retábulos dos labores e das festas, das pausas de saudade das perseguições da novidade.

 

É um livre-roteiro de uma navegante, que não consegue separar-se das alegrias e das decepções de quem ousou explorar ilhas e costas sob a guarda de tocadores de acordeão e a ameaça de lavas e tornados. É neste lendário da contemporaneidade e da eternidade que a artista regista o quotidiano e o transporte para as zonas do fantástico e do interdito, procedendo, como uma sacerdotisa, ao chamamento das coisas simples para os divinos lugares. Aí, onde se contam os segredos, e se escutam as lamentações. Aí, onde as gentes se predispõem a reconhecer a autoridade dos profetas e dos poetas.     Irene Gomes não é profeta. Mas é poeta. Isto é, traduz, nas telas e no papel, a paixão pelo efémero e a luta contra as ilusões. Sempre em comunhão com as fontes da existência. Sempre em relação com os ritos da comunidade. Livre, de cabelos verdes, a comer tremoços.

  

César Príncipe

bottom of page