O pincel como lança
Era inevitável. D. Quixote tinha mesmo que se encontrar com a Irene Gomes. Fatal como o destino. Estava escrito desde o lugar ermo da Mancha, cujo nome Cervantes não queria recordar, que o engenhoso fidalgo haveria de passar pelo atelier da Irene.
Veio quase sem Dulcineia mas com Sancho Pança por perto. Trazia no rosto um espaço aberto à releitura da realidade. E deixou-se pintar no meio de gigantes que tanto podem ser moinhos como simplesmente o próprio vento a tornar-se visível. Porque onde ela vê desejos, ele materializa-se em desenho. E onde ela pinta cores, ele desenha alegremente as aventuras desejadas por ambos.
É um jogo de cumplicidade recíproca e a mútua desconstrução da triste figura que todos fazemos quando nos levamos demasiado a sério.
D. Quixote posou para Irene Gomes como se a sua lança fosse um pincel e a lavadeira do romance se transformasse numa pintora de aguarelas.
O resultado foi este – um conjunto de quadros que funciona como estímulo criador para o desenho desanimado da realidade que vivemos.
D. Quixote está mais vivo nesta pintura do que em muitos filmes de cavaleiros contemporâneos. Ressuscita em cada olhar sobre os olhos que lhe faltam e as visões que nos sobram.
Há, de facto, um herói quixotesco nestas telas que Irene Gomes coloca à nossa frente para nos alargar o horizonte. É preciso ver para lá dos espaços vazios, que tanto podem ser os buracos dos olhos, como o próprio túnel do tempo. A Irene tinha mesmo que se encontrar com este cavaleiro no seu ateliê para nos mostrar outra aventura na tela. Esse momento mágico foi testemunhado por outra figura lendária que tanto a Irene como eu consideramos o nosso maior mito de rigor geométrico. Nadir diz que não embora admita que sim. Se eu
fosse Cervantes talvez me atrevesse a continuar a história. Assim, fico-me por aqui, deliciado com a aventura que as telas me desafiam a imaginar.
Carlos Magno